Mondo #2: Reinvenção

Uma viagem na memória da fase inicial (e inquieta) da minha carreira. Mais: DJs no Twitch, tendências, playlist no Spotify, post-carrossel no Instagram, Axé

Ano 1 • № 2 • 27 de agosto de 2020

EM 2002, ENQUANTO O BRASIL de Ronaldinho e Rivaldo detonava os adversários na Copa do Mundo de 2002, a da Coréia e do Japão, eu já acordava às 4 da manhã, só que para ir ao trabalho — e adorava minha rotina, de verdade. Tomava um banho rápido, tomava café da manhã e dava uma olhada n'O Globo do dia, que já estava na porta da garagem de casa. Às 5h15, mais ou menos, lá estava eu, firme, no ponto de ônibus, porque precisava estar às 6 na firma. Era a Escola 24Horas, possivelmente a 1ª empresa de tecnologia e educação no Brasil a investir no que seria logo chamado de "e-learning". Nesse tempo, fazia mais de 1 ano e meio que eu estava na empresa e tudo começou com um projeto pessoal meu.

Na crise atual causada pela pandemia, fala-se muito em "reinvenção". Só que eu enxergo esse movimento como algo que pode (e deve) ser feito a qualquer momento, pois é um processo que começa dentro de cada um. Isto é, sempre que se julgar que o momento presente não está à altura das aspirações para a vida profissional (na maior parte das vezes). Assim, minha 1ª reinvenção na carreira começou no 2º semestre de 2000, há 20 anos. Eu, três anos depois de formado em Letras (Português-Espanhol) pela UFRJ (sem contar a Licenciatura, que só acabou em 99), era professor de espanhol no CCAA. Nas horas vagas, fascinado pela internet e suas possibilidades, devorava as revistas Info e Revista da Web, ambas da Abril, todos os meses. Ficar parado nunca foi meu estilo e, em busca de novos caminhos, comecei a criar um site para download de MP3 grátis, cuja receita viria de anúncios. É que música, assim como filmes, sempre foram meus passatempos favoritos. Mas eu não tinha plano de negócios nem nada, foi só intuição mesmo, pesquisa, grana nenhuma envolvida e muita boa vontade de quem estava a fim de participar. Numa época em que nem se fazia ideia do termo "empreendedorismo", criar um negócio próprio na internet era coisa de poucos, ainda mais aqui. 

Só que houve um grande problema com site que estava criando, cuja história resumida contei nesse post no Instagram: era o ano em que o Napster estava sendo processado pelo Metallica e toda essa história de MP3 causava arrepios em provedores de internet e plataformas de  hospedagem. Resultado, meu site foi rejeitado pelas empresas nas quais tentei hospedá-lo. Sem chance. Ah, mas com todo o aprendizado que tive sobre como criar um site e muita vontade de seguir por esse caminho digital, eu não poderia deixar a ideia simplesmente morrer no meu HD.

Quando se quer mudar de carreira, faz muito mais sentido experimentar diversas opções, "criar um portfolio", do que tentar de forma obstinada e até teimosa uma só trilha que, em alguns casos, pode nem dar certo. Então, depois de pensar mais um pouco, meio sem saber o que fazer, mas notando que havia vários sites brasileiros para ensino online de inglês e nenhum de espanhol, eu não tinha mais dúvida: o Habla foi lançado em agosto de 2000. Era o 1º site brasileiro para ensino de espanhol, com direito, ainda, a "tira-dúvidas" online, pago! O arquivo do site ainda segue preservado graças ao Wayback Machine do Internet Archive.

E assim foi. O Habla saiu na revista Veja, no jornal Valor Econômico e eu fui chamado para dar entrevista no programa Sem Censura, então apresentado pela jornalista Leda Nagle, na extinta TVE (hoje, TV Brasil). No caso do programa, tenho o VHS gravado pela minha mãe enquanto eu estava lá (😄), mas nem sei se a gravação ainda tem qualidade (a foto abaixo eu tirei há cerca de 15 anos, quando ainda tinha videocassete!).

Tudo isso aconteceu no mês de lançamento do site, sem qualquer "jabá" na mídia, nem contatos. Foi tudo tanto por conta da minha cara de pau de me expor e enviar o material para essas publicações (o Sem Censura me procurou por conta da Veja), quanto porque a internet, em 2000, quando a então poderosa AOL comprou a Time-Warner, era meio novidade sobre suas possibilidades. Ou seja, quase qualquer novo site, vindo de quem fosse, era notícia.

Eu cheguei a ter 12 alunos que me pagavam, via transferência bancária (o "auge" do e-commerce em 2000! rsrs), para tirar dúvidas sobre a língua espanhola e trocar umas ideias por chat sobre aprendizagem. O resultado foi que, em março de 2001, eu fui chamado pela Escola 24Horas para compor a euquipe de espanhol da empresa — era a única disciplina na qual só havia um profissional. Assim, com a chegada de outros três professores, virou uma equipe mesmo e eu fui o coordenador, tendo criado todo o design instrucional e o conceito dos materiais, das fontes, das avaliações e do que era a área de espanhol online — tendo se estendido às filiais na Argentina, Chile e México. Foi uma experiência onde aprendi muito e ganhei um bom dinheiro, já que a empresa era bancada, em parte, pelo Banco Mundial e recebia um robusto aporte financeiro. Também tinha acesso a tecnologias e processos para a web que começavam a surgir naquele momento, como banda larga de 25MB (!) e programação perl/php/asp.

Mas, o que fiz para dar um salto profissional e me reinventar? Na minha cabeça é simples: eu procurei estudar e aprender novas habilidades sobre as quais tinha interesse nas horas vagas. Segundo um artigo na Harvard Business Review, o caminho mais comum para uma reinvenção de carreira envolve fazer algo secundário. E para criar o Habla eu passava várias noites (quando não trabalhava) e madrugadas criando, testando, recriando, procurando e entendendo diversos programas. Vendo hoje, o design era horrível, de fato. Isso, embora feito com Dreamweaver e Fireworks, ambos então aplicativos de 1ª linha da Adobe que nem existem mais. No entanto, da forma como ficou, o site serviu bem ao seu propósito e é isso que importa.

O projeto do Habla durou por um período muito breve, porém bastante gratificante e divertido. Intencionalmente ou não, conscientemente ou não, o site foi uma espécie de “trampolim” para me lançar em novos caminhos profissionais. Logo, minha reinvenção, de professor de espanhol e português, para um profissional criativo trabalhando nos primórdios da web, estava completa! Ainda assim, tentei manter o site ativo até o final de 2001, mas trabalhando na escala em que estava, acordando de madrugada, se tornou uma tarefa inviável.

Voltando ao início da história, meados de 2002, justamente na época da Copa, foi o último ano em que a Escola 24Horas teve uma sede, um espaço físico, no Centro do Rio. A partir do ano seguinte, todos os colaboradores trabalhariam em home office, num tempo em que mal se falava disso por aqui. Eu voltaria a ter uma rotina “normal” e ficaria na empresa até 2004, quando partiria por um caminho que me levou a me tornar um designer de comunicação — uma outra história. Ficar parado é que nunca pode ser uma opção.

Se me arrependo de ter praticamente "largado" o site/projeto do Habla um ano após ter lançado? Sim e não. Serviu para me abrir portas, mas eu não sentia que era o que eu queria profissionalmente. Ainda assim, sou grato pelas experiências que tive — foi um projeto fantástico, pioneiro, que foi muito bom enquanto durou! Olhando para trás, hoje coloco esse período como um dos mais importantes que tive na minha carreira, além de me mostrar que nada, mesmo, é impossível se você sonhar e se comprometer a realizar. ■


Reinvenção na cultura pop

Alguns artistas que mudaram radicalmente, de um trabalho para outro:

Skank

Ouça os três primeiros discos e o ótimo Maquinarama, onde se tornaram um banda de rock de verdade!

Radiohead

Saíram de The Bends, meio pop, para o experimental Ok Computer, diferente de tudo o que se tinha até então, em 1997.

Liam Neeson

O ator, que fazia papéis dramáticos em filmes como Lista de Schindler e Rob Roy, hoje se recriou como um herói de filmes de ação, como Busca Implacável.

Madonna

Nem precisa explicar tanto: ela faz discos completamente diferentes a cada vez, se reinventando e se adequando aos tempos, de forma natural (sempre com alta qualidade, diga-se). E ainda se tornou atriz!

Então, curta uma playlist no Spotify com esses e outros artistas que se reinventaram bonito, de um trabalho pra outro, em suas carreiras:


Mix

O que andei lendo nos últimos dias: Sem poder fazer eventos, DJs brasileiros usam o Twitch como plataforma para bailes virtuais, a partir de suas casas. De acordo com O Globo, a Amazon, dona da rede social, negocia agora com o ECAD como pagar os direitos autorais. @@ Será que o poderoso passaporte americano perdeu a finalidade, por ora, com a crise da COVID-19? É a reflexão de um jornalista alemão, naturalizado americano, no The Atlantic. @@ A Discovery Networks fez uma pesquisa sobre como o envolvimento emocional com um conteúdo ou com uma marca acaba se tornando o fator determinante para as decisões de compra e de entretenimento. E a TV ainda é o principal meio de disparar esse gatilho. @@ No Vox, uma análise sobre a proliferação de "posts-carrosséis" no Instagram. Funcionam como antigos slides de PowerPoint, só que agora servem para ativismo e também para dicas, inclusive sobre design. @@ No A.V. Club, um papo com um epidemiologista que afirma que ir ao cinema é a última coisa a ser feita agora. Claro! @@ Escapismo para o mundo virtual dos videogames, a nova criatividade virtual e esforços de pessoas e marcas para buscar positividade e otimismo quanto ao futuro são duas das 20 tendências do relatório The Future 100: 2.0.20, da Wunderman Thompson. @@ ¡Adelante! Alexandre Bobeda

Play

O que vi, ouvi e curti ultimamente:

GIFInspiração

Mucho, mucho, mucho amor!

Walter Mercado tinha razão: é tudo o que precisamos no momento, não é?


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Créditos das imagens: [Texto principal: Freepik; Arquivo pessoal; Veja; Internet Archive | Mix: Airbnb | GIFInspiração: Giphy]

Mondo é um produto do estúdio House Of X.